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Meditar & Amanhecer - T&XTO3

Viver a vida como um constante revirar de mãos feito na dança da Carmen Miranda, numa oscilante alternância entre estou triste, estou feliz, como se vivesse numa eterna gangorra emocional de altos e baixos, é um desafio em que muitas pessoas querem a possibilidade de mudança deste padrão. Compreender que uma mente saudável, assim como o corpo, requer treinamento é o que nos conecta e fortalece com a prática de meditação, um caminho que trilhamos em nosso (auto)cuidado.

A Meditação Vipassana é uma das práticas mais tradicionais de meditação da Índia, que visa a libertação do ser humano do sofrimento com o desenraizar de toda poluição e impurezas mentais. Surgiu com o Sidarta Gautama, o Buda, e acessamos esta pérola com o trabalho desenvolvido por Satya Narayan Goenka (ARIEL e MENAHEMI, 1997).


Aqui no Brasil, o Centro de Meditação Vipassana Dhamma Santi, onde nós tivemos acesso a esta prática, o Dhamma (2020) define que:

Vipassana é um caminho de autotransformação através da auto-observação. Concentra-se na profunda interconexão entre a mente e o corpo, que pode ser experimentada diretamente pela atenção disciplinada das sensações físicas que formam a vida do corpo e que continuamente interconectam e condicionam a vida da mente. É esta jornada baseada na observação, na auto-exploração da raiz comum da mente que dissolve a impureza mental, resultando em uma mente equilibrada repleta de amor e de compaixão.

Através da experiência direta acessamos a compreensão de como geramos ou nos livramos do sofrimento, na consciência expandida e no autocontrole a construção de um caminho (dhamma) de paz. A referência de passagem deste conhecimento acessamos através de S.N. Goenka, que aprendeu por quatorze anos Vipassana com Sayagyi U Ba Khin; e se estabeleceu na Índia onde passou a ensinar Vipassana em 1969 (DHAMMA, 2020). E em 1982, com a crescente demanda, começou a nomear professores assistentes a fim de ajudá-lo a dar conta dessa expansão e dimensão que ganhou o Vipassana no mundo, no trabalho de disseminar esta prática (DHAMMA, 2020). E como esta prática chegou em nossas vidas, partilhamos neste momento. Em seu relato, Daniel nos conta que:

Conheci o Vipassana através do comentário de amigos, essa é uma das magias do Dhamma, quando experimentamos os benefícios queremos compartilhar. E então falamos para nossos familiares e amigos. Toda a propagação do ensinamento se dá basicamente desta maneira, naturalmente. Então, ao eu escutar duas pessoas amigas que fizeram e recomendaram, conclui que realmente deveria valer a pena fazer. Na época, em 2015, havia acabado de me formar em Psicologia e, ao invés de investir o dinheiro no rito de formatura, decidi viajar para o Rio de Janeiro, indo a Miguel Pereira participar do curso. E valeu muito ter ido, até hoje venho fazendo cursos uma vez por ano, meditando diariamente e convidando pessoas a experimentarem a Meditação Vipassana. Me sinto muito mais estável na vida, principalmente nas situações em que acontecem adversidades, a meditação me auxilia a não entrar em “parafuso”, me centrar acalmando minha mente e tomar melhores decisões. Convido também a experimentarem Anapana, técnica preliminar ao ensino de Vipassana no Curso de 10 dias, e que pode ser ensinada aos que ainda não fizeram o curso . É a simples e profunda técnica de observar a respiração natural. Vocês podem aprender ela aqui, guiados pelo próprio S.N Goenka: https://www.youtube.com/watch?v=r64J9R45j3w&t=20s

No seu relato, Priscylla partilha que:

Na Bahia, conheci o trabalho da Associação Vipassana da Bahia, que foi fundada em maio de 2016 e, entre 7 de setembro a 18 de setembro de 2016, na cidade de Ilhéus aconteceu o primeiro curso de 10 dias do Vipassana na Bahia, onde eu vivi a minha primeira experiência com o Anapana e o Vipassana que da janela deste lugar trago esta foto. Encontrei numa rede social a chamada para este retiro, me inscrevi por e-mail e preenchi um questionário com perguntas que colocaram em reflexão a minha própria jornada que me levou ao encontro do dhamma. Vislumbrei neste chamado a possibilidade de viver uma outra forma de cuidado, numa vontade que me moveu a sair do repouso de um profundo processo de adoecimento que vivia e buscar forças para viver o enfrentamento que aquele adoecimento me pediu para parar e olhar para algumas questões que estavam sendo ignoradas. A vontade de libertação de um sofrimento revela forças existentes em nós, às vezes até desconhecidas, que nos ajuda mover os nossos processos de mudança. E para quem quiser conhecer a sede da Bahia seguem aqui os contatos da página https://www.facebook.com/groups/vipassanabahia/ ou obter informações pelo info@nordeste.br.dhamma.org.


Vivenciamos a experiência de praticar Anapana e Vipassana em retiro de meditação durante dez dias, adotando os códigos de conduta moral desta prática, na abstenção como matar, roubar, atividades sexuais entre outras. Me recordo do cuidado com a vida dos animais, e do uso de um pega inseto com um pote e um papelão, retirando de um ambiente e devolvendo a outro espaço. Na entrada, guardamos os celulares e a comunicação com o externo, também entramos em silêncio com abstenção da fala durante o retiro.

Após a primeira experiência, sentar novamente em Anapana e Vipassana, nos faz viver novas experiências e consolidar algumas aprendizagens deste caminho. Além de sentar para meditar as pessoas também podem praticar o Daña, serviço voluntário ajudando nos cuidados inerentes a realização dos retiros e nas contribuições financeiras de quem já sentou em vipassana. E das aprendizagens que marcaram a trajetória destas experiências ressaltamos aqui o desenvolvimento da Equanimidade e da Compaixão.

No desenvolvimento da Equanimidade, o não reagir é um dos aprendizados. Outro é a compreensão da impermanência, que surge dando mais leveza, por exemplo, ao aceitar as sensações confortáveis e desconfortáveis que surgem ao sentar em meditação.

A compaixão (karuna) é uma qualidade do coração e requer treinamento e consciência. Ela se pratica no relacionar com as pessoas e com o mundo, cuidadosa e atenciosamente, como um senso de preocupação com o bem estar, que vai além de si e dos relações mais afins, para com toda a vida senciente esteja livre do sofrimento.


A compaixão é uma necessidade e se evidencia tão significativa no momento em que vivemos com a pandemia covid-19, de pessoas que adoeceram e que partiram sem nossos ritos de despedidas, um luto mundial de famílias impactadas com esta experiência. O confinamento social, o isolamento em suas casas revelam as tensões e desafios quando se vive mais nas bordas da exterioridade em se deslocar numa profundidade nuclear no viver centramentos em nossa interioridade.


As pessoas que estão aprisionadas nas cadeias vivem diariamente a clausura de um confinamento no espaço, o isolamento social que ao tempo que beira também de um esquecimento das relações familiares. E neste espaço que perdura a vida, outras relações se estabelecem no convívio diário. Não ver a possibilidade de saída desta realidade podem dar espaço para o tédio, o estresse e a falta de esperança.

Em nossa sugestão de filmes desta semana trazemos três documentários que abordam a prática desta meditação no universo dos presídios. O documentário "Doing time, Doing Vipassana" (Tempo de Espera, Tempo de Vipassana), na cadeia de Tihar, na Índia. Outro documentário, Dhamma Brothers traz a experiência da Meditação Vipassana em um presídio de segurança máxima em Donaldson, no Alabama nos Estados Unidos. E por fim, o documentário de Daniel Labanca chamado Vipassana - o caminho da libertação, primeiro curso de meditação no presídio brasileiro de Ribeirão das Neves-MG.


Priscylla Lins Leal & Daniel Lopes Siqueira



REFERÊNCIAS

ARIEL, Eilona; MENAHEMI, Ayelet. Doing time, Doing Vipassana (Tempo de Espera, Tempo de Vipassana). 1997. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=c5poK8R2Mik. Acesso em 07 de junho de 2020.

DHAMMA. Vipassana Meditação: Como ensinada por S. N. Goenka na tradição de Sayagyi U Ba Khin. Disponível em: https://www.dhamma.org/. Acesso em 12 de junho de 2020.

PHILLIPS, Jenny; STEIN, Anner Marie. The Dhamma Brothers. 2007.

LABANCA, Daniel. Vipassana, o caminho da libertação. Sanfona Films. 2018 Disponível em: https://vimeo.com/274750312 . Acesso em 07 de junho de 2020.

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